Sobre os Noivos

      Sempre intrigou os noivos o fato de nunca antes haverem se conhecido. Afinal, coisa rara nos dias de hoje, os dois são nascidos e criados em Florianópolis, de famílias daqui. Mas as coincidências não param por aí: os dois igualmente completaram o Primário no Colégio Coração de Jesus e o Ensino Médio no Colégio Catarinense, se formaram em Direito na UFSC e ingressaram na Justiça Federal. Tinham, além disso, vários amigos em comum. Mas, seja por intermédio destes, seja naqueles ambientes, em que foram na maior parte contemporâneos, em nenhuma ocasião se conheceram, nem sequer de vista.

 

     Embora com todo esse histórico afim, só vieram a se encontrar, por acaso – ou obra do Cupido -, numa certa manhã de domingo, mais exatamente no dia 5 de outubro de 2008, convocados para trabalhar nas eleições. Ele e ela compunham a mesa da mesma seção, oriunda do Colégio Santa Catarina, mas naquele dia, por conta de uma reforma, instalada no histórico casarão do Colégio Silveira de Souza, na Rua Alves de Brito, bem no meio do caminho entre as casas das suas famílias, nas avenidas Trompowsky e Mauro Ramos. A primeira conversa, encetada entre um ou outro momento livre, logo lhes revelou suas afinidades. Saíram dali ambos, de forma hoje confessa, interessados em se conhecerem um pouco mais.

 

     Um empecilho: ele, como já extraíra ela dos guias de viagem que portava a tiracolo, naquela semana embarcaria com amigos a uma viagem de quase um mês, a percorrer Peru, Canadá e Estados Unidos. Ela teria de se contentar em comentar com as amigas a respeito de uma pessoa especial que conhecera, só mirabolando, sob o incentivo delas, como faria para reencontrá-lo. Ele já naquela noite enviaria uma mensagem sobre tê-la conhecido a uma amiga mútua, sugerindo alguma programação juntos quando da volta. Mas nada que, para sua frustração, se concretizasse no curto tempo de que ele dispunha no Brasil, às vésperas da viagem.

 

     Já de retorno, o local de trabalho em comum facilitou a retomada do contato, mediante uma troca de mensagens que levou a uma ida ao cinema; daí a um barzinho e a um beijo. E vários encontros se seguiram, em que os sentimentos de um e outro foram aumentando, dando origem ao seu namoro.

 

     Passados quase três anos de relacionamento, embarcaram juntos, em 2011, em viagem à Europa. Conheceram várias maravilhas, como, dentre muitas outras, a capital fortificada do Grão-Ducado de Luxemburgo, a quase milenar Catedral de Estrasburgo, na Alsácia francesa, o Duomo de Milão, a Verona de Romeu e Julieta, o Tirol austríaco, o castelo bávaro de Neuschwanstein, a Oktoberfest de Munique e a Salzburgo de Mozart. Além disso, o berço de suas famílias – a Renânia alemã dos Goedert e a Lombardia italiana dos Fossa. Tudo sem maiores contratempos. Vá lá: salvo, para ela, muito nervosismo nas íngremes estradas da travessia dos Alpes suíços ou uma labirintite que frustrou seu passeio de gôndola em Veneza, e, para ele, enquanto no volante, a privação da degustação de preciosas deutsche Biere e vins français ou a troca de um pneu furado na fronteira austríaca com a Eslováquia. Nada que fizesse mínima sombra à felicidade daquele momento, nem ao gostoso convívio e cumplicidade que, constatados, reforçaram sua ideia de viver juntos.

 

     Inteirado do encanto que, transparecido entre um suspiro e outro, nutria ela pela história de Sissi, a jovem imperatriz imortalizada por Romy Schneider na trilogia de Ernst Marischka, fez ele coincidir sua última noite no Velho Continente precisamente com um 5 de outubro, aniversário de três anos do dia em que se conheceram, na outrora capital imperial que sediava a Corte austro-húngara: a esplêndida Viena.

 

     Levou-a naquela noite ao Schloß Schönbrunn, residência de Verão da dinastia habsburga e exato cenário do enredo de Sissi, para jantar em sua Ehrenhof (Pátio de Honra) e, na sequência, assistir a um concerto da orquestra de câmara do palácio, em sua Orangerie, mesmo salão que em 1786 sediara memorável duelo musical entre Salieri e Mozart. E viu uma lágrima derramada por ela durante o Danúbio Azul de Strauss, valsa em ode ao célebre rio que perto dali conhecera naquele dia. Encerrada a apresentação, conduziu-a a um canto mais reservado do lugar e, descido o degrau sob a porta aberta para os jardins externos, pediu sua mão em casamento. Bem, digamos que uma ou outra lágrima mais se seguiram.

 

     A partir de então, lançaram-se a traçar os planos para o evento de seu casamento, havendo escolhido a data, como já não poderia deixar de ser, do mesmo 5 de outubro, desta vez um sábado de 2013, em que completam o quinto ano de seu primeiro encontro. E é nessa ocasião, a fim de que façam indispensável parte em importante capítulo dessa história e deem bênção à sua continuidade em uma feliz vida a dois, que os noivos esperam contar com a especial presença de seus convidados.